O trabalho, segundo a tradição religiosa é uma idéia de coerção penosa e segundo, Hegel e Marx, uma atividade transformadora da natureza destinada a satisfazer as necessidades, e seus mecanismos podem ser próprios da natureza genética de nossa espécie, isto é, filogenética, também ontogenética e cultural.
A carga genética que possuimos foi selecionada através da Evolução Natural, e com ela podemos nos defender, pois buscamos sempre fugir das adversidades do ambiente. Avaliaremos nossas atitudes por meio dos custos e benefícios feitos por cada um de nós, pessoalmente ou em grupo, a partir da opção em diferentes alternativas, sempre condicionados por programas de razão fixa ou variável. A característica singular é o ser vivo - a manutenção da espécie.
A história ontogenética nos conduz a partir do aprendizado por atenção, discriminação, imitação ou por controle instrucional. Nos leva a ter crenças e valores em função de sua educação e aproveitamento dela.
E a natureza cultural exclarece-nos que só é exercida quando temos valores e crenças, incluídos ganhos e perdas, escolhas corretas e aceitas numa determinada sociedade.
Através da filogênese, da ontogênese e da cultura configuram-se os papéis dos que estão implicados nas relações de vigilância por parte do capital sobre os que trabalham. Este papel calca-se, muito presentemente, através das relações de hegemonia que se estabelece pela legitimidade hierárquica, atribuindo ao trabalhador obediência e submissão aos seus superiores que têm liderança moral e intelectual, assim configura-se a heteronomia. Outro mecanismo que pode fazer parte do processo produtivo é o consenso, por meio deste vigora a ilusão de igualdade entre parceiros sempre desiguais. Pelo consenso pode-se estabelecer relações de justiça, colaboração e eqüidade, mas como se vê estas relações mascaram as próprias diferenças objetivas existentes, raça, cor, sexo, idade, escolaridade, papel social, etc..
Para o capital o operário é apenas um dos trabalhadores massificados e não ocupa, no organograma oficial, a posição daqueles cuja função determinada seria criar. Guareschi nos diz que o trabalhador está alienado do seu produto, cada vez mais, visto que não pode planejar, nem decidir, ficando sem ter como compreender o processo de expropriação de que é vítima, podendo até mesmo ficar doente e enfraquecido mentalmente, isto é, robotizado.
O trabalhador é aquele que trabalha para alguém e a máquina oferece uma idéia de ação e transformação, mas só o trabalho opera ação e transformação. O trabalhador criou a máquina e esta, assim como o dinheiro, o dominou numa escala globalizada, industrial e massificada. O trabalhador deve ter força de trabalho e a máquina é um instrumento criado que visa um objetivo para muitos, a produção em série, em massa. A máquina faz, hoje, com que o trabalhador dependa dela para trabalhar e sobreviver. A máquina executa movimentos automatizados e cadenciados e o trabalhador se identifica com ela pois lhe permite agir reduzindo os custos e aumentando os benefícios para ele, para o patrão e para os consumidores, pois, respectivamente, o trabalho torna-se menos penoso, o patrão recupera e amplia seus investimentos e o produto fica mais acessível para o mercado de consumidores.
O processo de trabalho começa com um contrato que estabelece as regras de venda de força de trabalho pelo trabalhador e sua compra pelo empregador. Sempre haverá um conflito entre o trabalhador e o trabalho, pois o trabalhador possui uma história de vida singular e a estrutura do trabalho tem outra história, haverá sempre uma injunção despersonalizante, uma vivência e um sofrimento.
A empresa pode e tem como avaliar se o trabalhador apresenta tais características, antes mesmo de serem admitidos, por meio do recrutamento e da seleção, onde estabelecem-se entrevistas, verificações e exames, isto contribui, e, em muito para facilitar a administração e controle sobre os trabalhadores. Assim a chefia controla, remaneja e estabelece prioridades de trabalho, modelando forças produtivas e o processo de trabalho que tem por fim a produção de mercadorias, baseadas nas variações de oferta e demanda. As relações humans também podem contribuir com a formação de grupos informais com o fim de alcançar os grupos operários e facilitar a administração e controle dos mesmos.
O Psicólogo deve trabalhar o sujeito intempestuoso a fim de resgatar o verdadeiro sentido do trabalho alcançado através dos tempos, localizando-o no aqui-e-agora e reeducando cada um, trabalhador e empregador, pois tudo isto passa pela subjetividade dos tempos, pela subjetividade dos homens, pela subjetividade do trabalho e pela subjtividade do próprio Psicólogo enquanto homem e enquanto homem que também trabalha.
Osny Mattanó Júnior.
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