quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O HOMEM COMO SER BIO-CULTURAL (1993/1994).

O HOMEM COMO SER BIO-CULTURAL (1993/1994).


          A busca e a necessidade humana pelo próprio ser humano e a força que a movimenta para o seu conhecimento enquanto ser que existe, principalmente, nestes últimos 30 anos, fez com que os estudos para a discussão de sua origem se voltassem para os relatórios arqueológicos que possibilitassem o encaminhamento para a compreensão de sua existência.
          Em conseqüência disto, a procura da origem da raça humana sustenta três tipos de teorias de nossa árvore genealógica. Os ¨monofiletistas¨ defendem uma (mono) linha de descendência. Os ¨polifiletistas¨ defendem muitas linhas de descendência - acreditam que nossa raça seja constituída de uma série de influências independentes que se fundiram durante o curso de milênios. E enfim, um grupo de origem recente (de 1925 aproximadamente), que defende a probabilidade da ¨zona de hominização¨, isto é, uma área limitada, porém bastante ampla da face da Terra, de características relativamente uniformes, onde uma vasta população de indivíduos estreitamente relacionados (alguma espécie terciária dos primatas superiores) foi afetada de modo simultâneo por uma série de mutações genéticas que levou ao surgimento de uma considerável variedade de formas humanas. Tanto as evidências da genética moderna quanto as recentes descobertas no sul e leste africanos de uma surpreendente variedade de criaturas hominídeas primitivas, indo da estatura dos anões (Plesiantropo) até gigantes (Parantropo robusto) tendem a apoiar esta última versão. E assim os primatas, que temos agora que aceitar como nossos primeiros primos, são os macacos desenvolvidos da África, o gorila e o chimpanzé, não o orangotango e o gibão do Sudeste Asiático, mais distantes da descendência humana, ou zona de hominização.
         Assim o período de evolução caracteriza-se pela descoberta de diversos grupos e subgrupos de fósseis. Fósseis, aliás, que comprovam que alguns grupos sofriam mutações favoráveis para resistir e superar dificuldades que comprometessem e sua existência, pois há uma seqüência evolutiva observada em suas capacidades de caça, locomoção e comunicação, entre outras, ao logo dos tempos. É claro, que as mutações não implicam, necessariamente, que a evolução e melhor adaptação e satisfação de necessidades de um grupo refere a não existência de outro, pois foram encontrados, vivendo na mesma época, o Homo Erectus (que é caracterizado pelo ganho da posição ereta) e o Homo Sapiens (Homem de Nandertal - homem do gêlo e das cavernas) (que se caracteriza pelo nascimento da crença em vida após a morte - pela simbologia - pois havia vestígios de alimentos e ferramentas junto aos fósseis encontrados). Sabe-se, pois, que quem melhor se adaptou e se satisfez, mais vida e possibilidades de vida desfrutou e, possivelmente, foi alvo de novas necessidades até os dias de hoje.
          O homem, a partir disso, se encontrou enquanto espécie como outra qualquer do reino animal, salvo suas capacidades que o possibilitaram a estudar seu próprio universo e, até mesmo se auto-questionar, e assim começou e tomou forma as suas concepções constituintes da evolução do Homem - a bio-culturalidade.
         Algumas ciências em constante desenvolvimento permitiram aperfeiçoar essa compreensão, sendo elas a Física, a Biologia, a Ecologia e a Etologia que abaixo discutiremos.
         A Física traz a discussão da entropia e da neguentropia. A entropia caracteriza-se como sendo um elemento dificultador para a sobrevivência da espécie e a neguentropia é a reorganização frente a esse elemento provocador de dificuldades para a sobrevivência. Sabe-se que todo ser vivo cresce e desenvolve-se pela superação de ruídos, isto, pois, é o que provoca/causa desorganização (entropia). A sobrevivência depende da transformação da entropia em neguentropia (reação ao meio desorganizado - provocar uma nova ordem  a partir da desordem). Os seres que estão à mercê do ambiente deixam de existir pois não têm como reagir às adversidades do meio em questão.
       A Biologia a partir dessas categorias explana que todo ser vivo para se desenvolver biologicamente pode ou não causar ruído (elementos que ele não tem controle) e com o ruído o ser vivo adapta-se a essa nova situação para uma nova auto-reconstrução para a vida a partir da entropia. O ruído pode ser importante para a evolução biológica da espécie. A diversidade das espécies também implicam em ruído.
        A Ecologia vai pensar a natureza como um organismo global - havendo interação entre os seres numa relação entrópica e neguentrópica.
        E a Etologia permitirá, a partir desses pressupostos, uma nova compreensão para o entendimento do Homem. Ela entenderá que todas as espécies têm comportamentos muito complexos, sendo eles organizados e organizadores e, que quanto mais alta a escala filogenética mais alta a manifestação emocional. Assim sendo, comportamentos como o namoro, angústia, ansiedade, depressão, afetividade, etc., estão associados, também incluindo suas formas de manifestação, com o  desenvolvimento das mesmas em escala filogenética, ou seja, a partir dos mamíferos os níveis de afetividade, ansiedade, depressão, etc., começam a atingir o auge emocional, aplicando-se ao Homem o auge.
          E assim vemos que o Homem não é um ser que rompeu com a sua natureza animal, pois dela adveio, o humano apenas caracteriza-se pela civilização e pelas leis que mantêm a sua ordem.
          Em vista disso, traçamos dois comentários para imaginar as atividades rituais das primeiras sociedades e as suas relações com a nossa.
         Segundo o Dr. Wolgang Köhler em seu livro Metality of Apes (A Mentalidade dos Macacos), os chimapnzés apresentam comportamentos muito próximos do homem - isto conforme Joseph Campbell em As Máscaras de Deus: mitologia primitiva de 1959.
         Köhler descobriu que os chimpanzés estabeleciam inexplicáveis vínculos com os objetos sem  qualquer utilidade para eles e andavam com tais objetos por dias a fio em uma espécie de bolso natural no baixo ventre. Uma fêmea adulta chamada Tschengo apegou-se a um apedra redonda polida pelo mar. ¨De maneira alguma você conseguis tirar-lhe a pedra¨, diz Köhler, ¨e, à noite, o animal levava-a para seu aposento e seu ninho¨ conforme Joseph Campbell cita e comenta em As Máscaras de Deus: mitologia primitiva.
         A segunda observação é de natureza social. Tschengo e outro chimpanzé de nome Grande inventaram  uma brincadeira de girar e girar que foi imitada por todos os outros. ¨Qualquer jogo a dois¨, escreve o Dr. Köhler, era capaz de acabar nessa brincadeira de ¨pião¨, que parecia expressar o clímax de uma amistosa joie de vivre. A semelhança com a dança humana tornou-se mesmo impressionante quando as voltas eram rápidas ou quando Tschengo, por exemplo, estendia os braços horizontalmente enquanto girava. Tschengo e Chica - cuja atividade preferida durante o ano de 1916 era esse ¨rodopio¨ - por vezes combinavam com as rotações um movimento para a frente e assim giravam lentamente em volta de seus próprios eixos e pela área que lhes era destinada.
         Todo o grupo de chimpanzés, às vezes, unia-se em padrões de movimento mais elaborados. Por exemplo, dois lutavam e caíam perto de um poste, logo seus movimentos se tornavam mais regulares e tendiam a descrever um círculo tendo o poste como centro.
         Um por um, o resto do grupo aproxima-se, junta-se ao dois e, finalmente, marcham todos de maneira ordenada em volta do poste. O caráter de seus movimentos muda; eles não andam mais, trotam, e como regra, dando ênfase especial a um pé, enquanto o outro pisa levemente, desenvolvendo assim algo próximo de um ritmo e tendendo a ¨manter o compasso¨entre si....
        ¨Parece-me extraordinário¨, concluiu Köhler, ¨que pudesse surgir de modo espontâneo, entre os chimpanzés, algo que sugere tão fortemente a dança de algumas tribos primitivas¨.
        A crise psicológica que chamamos de  ¨arrebatamento¨ já está presente e o júbilo nos padrões de movimento do grupo, subjacente tanto no ritual quanto na arte da dança, também é evidente. Notamos, além do mais, o surpreendente detalhe do poste central, que nas mitologias mais avançadas é interpretado como a Árvore Cósmica que une e sustenta o mundo, a Montanha do Mundo, axis mundo ou santuário sagrado, para o qual devem ser orientadas tanto a ordem social quanto as meditações do indivíduo. E, finalmente, temos aquele maravilhoso senso de brincadeira, sem o qual nenhum jogo de faz-de-conta mitológico e ritual jamais poderia ter chegado a existir. Já se pode ver que no ato de brincar são descobertos novos e fascinantes estímulos, provocadores de energias, unindo os grupos à maneira, não da economia, mas da ação livremente traçada - o que quer dizer a arte, segundo Joseph Campbell.
        O ser vivo é capaz de se adaptar e transformar o meio ambiente ao mesmo tempo que é transformado para viver num ecossistema onde tudo o que há interrelaciona-se. Seja na produção de ruído com a saída da indivíduos de floresta (seu sistema) para a savana, onde necessariamente para a sua sobrevivência deverá ocorrer a reorganização de seus relacionamentos com a natureza e com seus semelhantes, ou até mesmo nas relações que o indivíduo tem consigo, a nível trófico e de auto-conhecimento.
       Eis que o fogo é descoberto nesse sistema de reorganização e por fim passa a ser sinal de organização do social, pois com o fogo o grupo se permitiu regular seu sistema de proteção contra possíveis predadores.
       E a caça passa a ser uma práxis fundamental para o desenvolvimento do indivíduo (Hominídeo), pois com a saída da floresta para a savana ela teve que desenvolver técnicas para poder sobreviver, já que em meio onde há pouco vegetal a alimentação é quase sempre animal, e o indivíduo criou novas práticas onde a caça e o aperfeiçoamento da técnica foram fundamentais para ele e, ocorreram mutações e nível maxilar e em suas mãos, pois era necessário face ao processo de adaptação.
       Neste primeiro momento, verificamos o que pode ser o primeiro momento de organização social humana, pois com a saída dos primatas (chimpanzés e babuínos) para as savanas eles começaram a se organizar diferentemente dos gorilas e orangotangos, pois novas situações eles encontraram e descobriram o fogo como regulador social, visto que, este regulava, até mesmo, o sono e conseqüentemente o pensamento a nível imaginário (os sonhos).
      Destacamos abaixo a importância da organização social que adveio com o surgir de novas situações ambientais e, por conseguinte, o controle social.
      Como sabemos há diferenças entre as sociedades dos babuínos e as dos chimpanzés, por exemplo: entre os babuínos o macho é dominante, a fêmea mais velha tem mais autoridade sobre as mais novas e os jovens babuínos ficam a margem da sociedade - a única saída para um jovem babuíno sobreviver é encontrar uma jovem e formar um novo grupo, isto, pois, se mostra uma transfiguração, um ascender social. Já os chimpanzés têm relação mais exibicionista, pois a fêmea muitas vezes dribla o seu par para acasalar-se com outro macho - sua sociedade é descentralizada, já que entre os machos há menos hostilidade, talvez porque na savana a organização é mais difícil, visto pois que para a manutenção da espécie faz-se necessária  a cooperação entre os indivíduos frente aos perigos propiciados pelos animais hostis ou predadores.
       Assim para os jovens hominídeos a marginalidade passa a ser desfeita, mas os jovens ficam subordinados aos adultos. E a necessidade de endoculturação aumenta a duração biológica da espécie, pois são ensinados todos os conhecimentos adquiridos (a práxis) de caça e socialização. Insinua-se aqui a criação da imagem do pai, sendo que este é que ensinava aos jovens, e assim foi sendo comum esta prática de ensinamento.
       Entre os hominídeos a criança passa a não ter condições de se agarrar a sua mãe  e segundo antropólogos a demonstração da afetividade  e de fraternidade entre os primatas durante a caça é a primeira demonstração simbólica do homossexualismo - durante a caça formavam-se grupos de caça que assim os riscos contra os predadores seriam menores - ¨reduziriam assim as condições adversas do meio ambiente em busca de sucesso, sobrevivência e realização¨ (Tântala).
      Tudo o que estava sendo aprendido através da caça (por exemplo) devia ser ensinado aos filhos (e a práxis cada vez mais tornava-se mais complexa) - a transformação da informação adquirida necessitava de meios mais elaborados e práticos, de uma simbologia ou linguagem adequada para as suas  reais necessidades comunicacionais - as linguagens cinésica e proxêmica não estava dando conta de todo o conhecimento - o termo linguagem cinésica refere-se a gestualidade como fator de comunicação, então são gestos, expressões musculares e posturas dos indivíduos que acabam por demonstrar estados afetivos nas mais diversas situações. O termo linguagem proxêmica refere-se a outro fator comunicacional, sendo ele, a territorialidade entre os indivíduos do mesmo grupo, ou, até mesmo, entre diferentes grupos - segundo Edward T. Hall em A Dimensão Oculta: ¨A hipótese por trás do sistema de classificação proxêmica é a seguinte: está na natureza dos animais, inclusive o homem, apresentar o comportamento que chamamos de territorialidade. A distância específica escolhida depende da transação; a relação dos indivíduos em interação, como eles se sentem e o que estão fazendo¨. Então a linguagem verbal estabelece-se na medida em que se complexifica associação de sons emitidos para a mediatização por símbolos das relações com a natureza e com seus semelhantes. Sabe-se que a associação de sons só se concretizou com a realização evolutiva dos primatas que deixaram as florestas, pois como demonstram estudos atuais sobre o desenvolvimento da fala, uma das principais características desta efetuação está no balbucio.
       Uma das dificuldades principais para o desenvolvimento da fala (como a conhecemos) no macaco é a ausência do balbucio. Enquanto um bebê balbucia para si mesmo por horas sem fim, num estágio comparável de desenvolvimento, o bebê chimpanzé permanece quieto. Em geral, por vários dias, o chimpanzé não pronuncia um único som. Logicamente, um nível operante maior que zero é um requisito para fortalecimento, pois alguma coisa deve existir para se reforçar.
       Nota-se outro aspecto importante para a produção da linguagem, a repetição da própria produção vocal. Esta alteração possibilita o fortalecimento de determinados sons que são da língua materna. A medida que os sons se complexificam e associam-se por meio do fortalecimento (sorriso, sons, carícias, etc.), percebe-se que outras emissões sonoras deixam de existir gradualmente e permanecem aquelas que combinam com a comunidade.
       Seguindo isto, uma família tentou criar, desde o nascimento, um chimpanzé e tentou ensiná-lo a falar. A tarefa foi difícil, porque o macaco, à primeira vista, não emitia som operante algum. Os únicos sons que produzia eram gritos reflexos quando alimento ou outros eliciadores apareciam... eventualmente, um som ¨ahhha¨ emitido apareceu, espontaneamente, num dia e mostrou-se ser reforçável. O macaco aprendeu, eventualmente, a dizer ¨Mama, Papa e Cup...¨ (J. R. Millenson, s/d.).
       Destaca-se, então, este aspecto que certamente adveio com a evolução dos hominídeos, pois os macacos estão desprovidos de complexificação balbucial. E o hominídeo passa a ser o precursor da intencionalidade persuasiva - a linguagem verbal além de ser instrumento de comunicação, passa a ser de organização social, pois é pela linguagem que se estabelece o processo de endoculturação, e posteriormente, a organização. A linguagem fez o Homem pois é portadora de saber adquirido e detentora de cultura. A cultura é um conjunto de saberes conscientes e na maior parte das vezes inconscientes, pois é adquirida, ou seja, aprendida pela socialização. A cultura é transmitida para que ela se perpetue, face que é indispensável para a sobrevivência da espécie, já que se não são aprendidas (por exemplo) as estratégias de caça, possivelmente o grupo acabará sedo reduzido pela ação dos mesmos, pois não detém saber apropriado para a caça e o que a envolve, como as regras de proteção e ataque durante a tarefa. Salientamos aqui que existiram regras inovadoras, mas que não foram indispensáveis para a sobrevivência dos primatas - este grupo de regras dispensáveis para a perpetuação de suas espécies são conhecidas como proto-cultura.
       A cultura é um processo gerativo que estabelece conhecimento para sua descendência, e este conhecimento sofre ação da regeneração, pois sua descendência está em tempo e espaço diferentes do original.
       A composição biológica certamente não pode acompanhar a necessidade real do hominídeo (pois o hominídeo dependia de mutações para sobreviver) e a velocidade que surgiam novos saberes para manutenção da espécie determinam que só poderia haver transmissão de conhecimento com eficácia por intermédio da linguagem verbal, eram muitas informações a nível genético e advêm mutações e ao adquirido se realiza somente com complexidade cerebral - geneticamente se configura um cérebro mais competente para a necessidade organizadora.
       Assim a cultura necessita de um cérebro para existir - caso contrário seria somente produção de proto-cultura, sendo deste modo o Homem um ser bio-cultural (com complexidade cerebral e organizadora). O sistema conservador possui o adquirido e isso também passa a ser agente da evolução. Por fim, o cérebro constitui-se como sendo o epicentro da construção do ser humano e concomitantemente ao desenvolvimento cultural surgiu o Homo Sapiens Sapiens.
       No entanto, não se pode descartar da história filogenética da nossa espécie o nenhum consenso sobre as categorias instintivas na espécie humana.
       Estudiosos apresentam listas significativas de instintos animais, ¨como o sono, a busca de alimento, a fugo do perigo, o combate em autodefesa, luta e rivalidade  sexuais, cortejo, acasalamento e comportamento parental (formação de ninhos, proteção de filhotes, etc.)¨ (Campbell, 1992, pp.51). ...que proporção dela pode ser passada para a esfera humana, ainda não se sabe. Em primeira instância poder-se-ia supor que a busca de alimento, o sono, a autoproteção, o cortejo e o acasalamento e algumas das atitudes parentais deveriam ser instintivas. Mas, permanece sem resposta a questão a respeito de quais são os estímulos sinais que podem ser tão imediatamente conhecido pelo interior humano (Campbell, 1959, pp.52).
       Com o propósito de explicarmos pistas que contribuam para  o entendimento de que esta questão pode e deve ser melhor explorada, ilustraremos a proposição com duas das manifestações comportamentais de animais - isto pode intrigar-nos.
       As tartarugas marinhas após depositarem os ovos em um ponto da praia que a maré não alcança, cobrem-os e voltam para o mar, e passados dezoito dias, minúsculas tartarugas saem pela areia e correm para a forte rebentação das ondas tão rapidamente quanto podem, enquanto as gaivotas descem ruidosas para apanhá-las (Campbell, 1992). E ¨os pintinhos, que mal saídos de suas cascas já correm em busca de proteção quando se avizinha um falcão, não fazem o mesmo ante uma gaivota, um pato, uma garça ou uma pomba. E ainda mais, se fizermos sobrevoar por cima de um galinheiro um falcão de madeira preso à ponta de um arame, os pintinhos reagirão como se fosse verdadeiro, ao passo que se movimentarmos esse simulacro como se voasse para trás, os pintinhos não reagirão.¨ (Campbell, 1992, pp.39).
       Como diz Campbell: ¨não se poderia desejar uma representação mais vivida da espontaneidade e da busca do ainda-não-visto. Não se trata aqui de um aprendizado por tentativa e erro. Eles sabem que precisam apressar-se, sabem como fazê-lo e sabem exatamente para onde estão indo.¨
       Os estudiosos do comportamento animal cunharam o termo ¨mecanismo liberador inato¨ (IRM = innate releasing mechanism), para designar a estrutura herdada do sistema nervoso  que permite ao animal reagir diante de uma situação jamais vivida anteriormente, e denominam ¨estímulo sinal¨ ou ¨liberador¨ ou fator desencadeante de reação. É óbvio que a criatura viva que reage a tal sinal não pode ser o indivíduo, já que não teve conhecimento prévio do objeto ao qual está reagindo. O sujeito que reconhece e reage é, antes, algum tipo de trans ou superindivíduo, habitando e vivendo a criatura viva. Não vamos especular aqui sobre a metafísica deste mistério, pois, como Schopenhauer sabiamente observa em seu ensaio sobre O Propósito da Natureza, ¨estamos imersos em um mar de mistérios inescrutáveis, sem saber compreender o que nos rodeia e tampouco a nós mesmos.¨ (Campbell, 1959, pp.38-39).
        Em vista do exposto acima, pode-se acreditar que existem mecanismos liberadores inatos em nossa espécie e, que, com o estabelecimento do processo gerativo e regenerativo de práticas para a manutenção da vida, ou seja, cultura, que é necessária para a vida, pois envolve a linguagem, e, até mesmo, o imaginário. O imaginário dá-se pela ausência, vem , então, o desejo de representações, crenças e sentimentos segundo a Filosofia, a Psicologia e a Psicanálise, o Dr. Carl G. Jung escreveu: ¨a cultura está além do propósito da natureza¨, ¨...quando vivo numa casa que sei que vai ruir sobre minha cabeça dentro das próximas semanas, todas as minhas funções vitas são enfraquecidas por esse pensamento; mas se, pelo contrário, sinto estar seguro, posso morar ali de uma maneira normal e confortável¨ (Campbell, 1992, pp.108-109), - se eu tenho um bom dia minha noite também será, terei um bom sonho e serei melhor no dia seguinte, - Jung referia-se aqui ao confronto de todos os homens com o irresistível Rei Morte. Segundo Jung, a pregação, religiosa ou não, de vida após morte é uma questão de ¨higiene psíquica¨ e revitalizante. Assim, se o homem dependesse apenas da transmissão genética para aprender os novos meios e técnicas de sobrevivência, certamente não resistiria após deparar-se em meio as savanas.
        Entende-se, então, que a partir da paleossociedade (o primeiro momento de organização social do homem (que consubstancia-se quando o hominídeo está nas savanas e necessita de regras para sobreviver)) originou-se a arquissociedade (o segundo momento da sociedade humana (sendo esta, adequada ao Homo Sapines, pois indica maior complexidade decorrente de todos os elementos da evolução)). Sabe-se, também que a paleossociedade substanciou elementos que persistem em comum nas diversas sociedades, como por exemplo, o tabu do incesto (que diz respeito a regras que orientam com quem se pode casar).
        Então, a partir da paleossociedade a sociedade humana tornou-se melhor e mais diversa. Pois a complexidade cerebral e  a complexidade cultural instauram novas formas de complexidade social. A partir disto instauram-se relações microssociais e macrsossociais, a família e a sociedade envivecida pela educação secundária, mas fundamental, a escola, a religião, o trabalho e uma nova família.
       Assim o microssocial determina as primeiras noções de quem é aparentado. Com esta prática tornando-se comum no meio social a estrutura familiar vai se tornando permanente.
       E através da macrossociedade, se instaura a exogamia e, por conseguinte, o tabu do incesto que associam-se para catalisar uma nova sociedade. A exogamia também vai favorecer uma mistura e alargamento genético, ou seja, as diferenças entre os indivíduos, ao passo que vai restringir eventuais evoluções ou alterações genéticas (mutações), por exemplo, pessoas que possuem alterações na forma dos pés para melhor efetuar as necessidades de locomoção em terrenos áridos, podem, até transmitir essa alteração morfológica para sua comunidade, pois possibilitarão um melhor rendimento para estas necessidades, mas certamente não haverá a multiplicação deste fato em meios sociais em que a alteração morfológica seja dispensável, ou melhor, não sejam compatíveis com os padrões sociais de beleza, deste modo peculiar sendo considerada uma aberração. Assim a exogamia é um fato cultural que pode desencadear uma questão genética e instaurar uma nova comunicação - a da comunidade.
       Paralelamente a isso observamos que a complexidade cerebral impossibilita o homem a dar uma única resposta para o real. Visto que o imaginário surge da complexidade cerebral que acabou dando, por necessidade, respostas ao mundo real. A simbolização, um conjunto de símbolos de significado constante, e a decodificação deles é feita pelo cérebro, que pode  ser considerado como sendo ¨demente¨, pois é incapaz de dar uma única resposta ao mundo real. Assim, destacamos que dessa necessidade imaginária o Homem criou deuses que influenciam nossas vidas. Esta arquicultura serve para instalar novas manifestações organizadoras, já que o homem tem a necessidade de identificar-se com alguém/algo - por isso, a magia, a religião e os mitos são necessários para a vida.
       Com a arquissociedade e conseqüente arquicultura o Homem percebe a questão da individualidade, pois cada indivíduo tem sua história de vida, e se dá conta de que, até mesmo, a capacidade cerebral vai aproveitada diferentemente pelas sociedades.
       Por exemplo, a história de Actéon, do período clássico tardio, conforme apresentada em As Metamorfoses de Ovídeo, fala de um caçador, um jovem vigoroso no apogeu de sua virilidade que, andando à espreita de veados com seus cães, deparou com uma corrente de água que acompanhou até a fonte, onde irrompeu diante da deusa Diana banhando-se, cercada por uma plêiade de ninfas nuas. E o jovem, que não estava preparado espiritualmente para tal imagem sobrenatural, olhou-a como homem; percebendo isto, deusa lançou seus poderes e transformou-o num veado, que seus próprios cães imediatamente farejaram, perseguiram e estraçalharam (Campbell, 1959, pp.62).
      No nível comum de uma típica leitura freudiana, este episódio mítico representa a ansiedade lasciva de um menino descobrindo sua mãe; mas de acordo com uma tendência referencial mais sofisticada e ¨sublimada¨, mais apropriada à esfera pós-alexandrina da arte de Ovídio, Diana era uma manifestação da deusa-mãe do mundo, que já encontramos como rainha Ísis e que, como ela própria nos disse, era conhecida nas culturas mediterrâneas por muitos nomes.
       O estado do bebê no útero é o da bem-aventurança - uma bem-aventurança passiva - um estado de ser comparado ao da beatitude no paraíso. No útero, o bebê é inconsciente da alternância do dia e da noite ou de qualquer das imagens de temporalidade. Não deveria surpreender, portanto, se as metáforas usadas para representar a eternidade sugerem, àqueles treinados no simbolismo do inconsciente infantil, ou seja, a idéia de que a passagem do limiar mágico é uma passagem para uma esfera de renascimento é simbolizada na imagem mundial do útero (Campbell, 1949).
       Com estas explicações mitológicas e psicanalíticas podemos avaliar como o cérebro produz diferentes significados quando em processo de decodificação dos fatos do mundo para sua própria realização, ou melhor, do sujeito ou grupo. Ou seja, o que é bom para um pode não ser para outro, mas ambas decodificações satisfazem às necessidades envolvidas. ¨O intelectual moderno não encontra dificuldades em admitir que o simbolismo da mitologia se reveste de um significado psicológico. Está fora de dúvidas, especialmente depois do trabalho dos psicanalistas, que tanto os mitos compartilham da natureza dos sonhos, quanto os sonhos são sintomáticos da dinâmica da psiquê. Sigmund Freud, Carl G. Jung, Wilhelm Stekel, Otto Rank, Karl Abraham, Géza Róheim e muitos outros desenvolveram, nas últimas décadas, um moderno corpo, vastamente documentado, de interpretações de sonhos e mitos; e embora tenham divergência entre si, esses doutores se unem num grande movimento moderno por meio de um considerável conjunto de princípios comuns¨ (Campbell, 1949, pp.251).
       O exposto acima só vem a confirmar que a complexificação cerebral implica, também, em desenvolvimento teórico e prático dos saberes científicos, como aprendizado dos saberes não-científicos - graças ao que podemos com o nosso cérebro no presente momento - a nossa vida deve-se à Deus e  a complexificação cerebral advinda do nosso processo evolutivo - assim superamos as condições adversas do meio ambiente e estamos aqui aprendendo e ensinando - nossa filogênese melhorou nossa ontogênese e a nossa cultura se não nos destruírmos!



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CAMPBELL, Joseph.    As máscaras de Deus: mitologia primitiva.   São Paulo, SP,
      Editora Palas Athena, 1959.

CAMPBELL, Joseph.   O herói de mil faces.   São Paulo, SP, Cultrix/Pensamento, 1949.

HALL, Edward T..   A dimensão oculta.   Rio de Janeiro, RJ, Ed. Francisco Alves, 3 ed. 1989.

KOCH, Ingedore G. Villaça.   Argumentação e linguagem.    São Paulo, SP, Ed. Cortez,
      2 ed. 1987.

MILLENSON, J. R..   Princípios de análise do comportamento.   Brasília, DF, Coordenada- Editora
     de Brasília, s/d..

WEIL, P. & TAMPAKOW, R..   O corpo fala: a linguagem silenciosa da comunicação não-verbal. 
      Petrópolis, Rj, Ed. Vozes, 22 ed. 1989.



Londrina, 18 de agosto de 2012.
Osny Mattanó Júnior.

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